sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Reviravoltas da Vida

      Imagine-se passando por profundas mudanças em sua vida. Imagine-se vivendo tudo novamente. Não é uma reviravolta? Mudanças ocorrem e, muitas vezes, não tomamos consciência das transformações que ocorrem em nosso existir. Foi assim que senti durante vários anos, mais especificamente 27 anos de meu existir. Não prestava atenção ao que me ocorria enquanto ser humano, muito menos me permitia passar por mudanças em minha maneira de viver. Minhas relações se configuravam de tal forma que não necessitava de alterações significativas. Não que eu me sentia incomodado, muito menos triste e desesperado. Mas que, durante todos esses anos, não era consciente das mudanças que me ocorriam. Posso dizer que as mudanças foram e continuam a ser significativas para meu existir. Faz três anos e pouco que me descobri enquanto homem e adulto que sou. Foram momentos de grande dor e sofrimento que me levaram a ver que a minha vida pode ser diferente. Não sabia e ainda não sei o que significa ter prazer, fazer o que gosto e o que eu desejo para mim. Intelecto em si mesmo não me realizava. A vida é muito mais do que uma mente que pensa e que reflete o tempo inteiro. Posso me permitir vivenciar pequenos prazeres sem culpa e sem sofrimento, já que não levarei dessa existência  nada além daquilo que vivenciei e vivencio a cada momento de minha vida no mundo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Solidão: uma tarefa necessária


     Em tempos de incessante transformação tecnológica e de rápido fluxo de informações, pessoas e ideais, temos cada vez mais a sensação de que não precisamos do outro para nos tornarmos mais completos e inteiros. Há alguns anos, víamos na constituição de uma família ou de grupos uma forma de aplacarmos a nossa falta e nosso desamparo enquanto sujeitos em relação, enquanto humanos que somos. A pós-modernidade não proporcionou apenas avanços, mas também  trouxe em seu desenvolvimento um dos principais fatores com que o ser humano se depara no decorrer de seu existir: a solidão. 
  Teorias que enfatizam o sujeito em relação, anteriormente, eram privilegiadas. Mas, no momento atual, o que se tem visto é o fato de que cada vez mais nos encontramos sozinhos e angustiados. As teorias que surgiram nos momentos iniciais do século XX e XXI enfatizam o papel e a importância dos relacionamentos para o desenvolvimento pessoal. Mas, agora, essas mesmas abordagens não são vistas como suficientes para entendermos como o ser humano lida com as mudanças constantes da vida em sociedade e pessoal. Temos visto cada vez mais pessoas solitárias e infelizes e que não se sentem competentes para estabelecerem relações com outras pessoas.
   Do ponto de vista existencial, podemos dizer que ser livre é uma das condições principais do humano. Liberdade para escolhermos nosso destino enquanto seres no mundo que somos. Como decorrência de uma condição de liberdade surge um dos sentimentos mais comuns de todo e qualquer sujeito, ou seja, nos sentimos angustiados. A angústia, assim como a liberdade, faz parte de nossa condição de seres livre e que somos “jogados” na vida. Diversos modelos teóricos acabam por negar o fato de que o ser humano é angústia, em outras palavras, negamos o fato de que nascemos e morremos sozinhos.
   O que podemos apreender através do que acabamos de expor é que, mesmo que neguemos o contato com nossa interioridade  e com o nosso próprio eu , não há como nos desvencilharmos de nossa solidão. Precisamos ter o “nosso ócio criativo” ou o nosso momento de solidão em que transcendemos a nosso momento presente temos a possibilidade nos tornarmos mais criativos e produzirmos cada vez mais. Relacionamentos em que cada um se encontra com o outro em sua inteireza e sem a necessidade uma fusão ou complementaridade com demais sujeitos são mais significativos se comparados às formas de relação estabelecidas socialmente e tidas como um ideal de toda e qualquer pessoa.

terça-feira, 13 de março de 2012

Moderna Tecnologia

Como gostaria de me livrar de toda a moderna tecnologia humana, pois tudo o que consegui até agora foi apenas uma ilusão, um grande engano. Sinto-me traído por toda essa tecnologia humana. O que ouve com as relações humanas? Como poderei me livrar de tudo isso? Sou um sujeito que se encontra perdido em todo esse caldeirão da modernidade e em que já não há mais relações. Antigamente não precisávamos de computadores, msns e facebooks, além de tablets entre outros inventos da tecnologia humana. Apenas líamos e escutávamos rádios. A nossa imaginação era o recurso mais poderoso a que recorríamos aos no relacionar com a vida, com as pessoas e com o mundo. Hoje o que nos sobre? Apenas um computador cheio de fios e conexões? E as redes de relações humanas que suponhamos serem mais verdadeiras e espontâneas? Enfim, nem sabemos como agir, pensar, em que acreditar, desejar e almejar. Sinto-me um sujeito virtual e sem referências concretas. O solo fértil me foi retirado e como farei para brotar nessa terra tão infértil, tão improdutivo?
Pensando mais concretamente, o que poderei fazer diante do mundo da tecnologia é me adaptar, mas sem que seja passivo e dependente. Posso dizer que desejo muito romper com essa realidade de fios e conexões, começando a partir desse escrito em que me desabafo. Não sou um sujeito moderno e computadorizado. Posso ser antiquado, mas gosto de usar minha imaginação com recurso par me relacionar.

Amarras de um existir:

Como me sinto livre das amarras em que a vida me prendera. Como penso hoje o quanto já estive preso e limitado ao conforto das amarras dessa vida que não me escapa. Não me escapa nenhum segundo, pois carrego o fardo de ter de continuar a viver cada vez, cada vez mais. Digo isso tudo apenas para expressar o quanto é difícil passar toda a minha e todo o meu existir preso aos limites da vida que Deus me proporcionou e ainda me proporciona. Não escrevo com o intuito de reclamar de minha vida, pois vivo relativamente bem de saúde, de parte financeira e de cuidados de entes queridos, no caso minha mãe. Perdi meu pai já faz quase três anos, mas sei que ele está próximo de todos nós. Tenho um irmão que é meu amigo e uma mãe maravilhosa. Apesar das nossas brigas, procuramos viver em harmonia. O que, na verdade, me prende e me amarra é o fardo de ter de carregar um peso durante todo o meu existir. Sou também um sujeito limitado fisicamente e uso cadeira de rodas para me locomover, mas nem é isso que me prende e me amarra. Na verdade, é o fardo de ter de lutar para conquistar um espaço na vida das outras pessoas. Vejo hoje com é difícil conquistar um espaço no coração, na mente e na vida dos outros, mas sei que cabe a eu conquistar o espaço que me é caro. Sou limitado quanto ao fato de amar, gostar de alguém e ser um interesse para as demais pessoas, mas sei que posso me desprender dessas amarras que me impedem de ser e sentir-me mais solto, livre e um Homem comum.

domingo, 11 de março de 2012

reflexão

" O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura: e nela então o humano do homem se refugia"

Clarice Lispector

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Nossa Vida

assim é a vida
nos envolvemos muito com uma relação
é como se fossemos um só com a pessoa amada
até bichos amamos
e sofremos quando perdemos
quando pensamos que tudo vai dar errado, esquecemos que podemos mudar nosso rumo
e fazer dar certo
valer a pena viver
por isso ficar no nosso conforto é muito fácil
mas nos faz sofrer mais ainda
somos confrontados com nossos próprios sentimentos
que não nos damos conta do que é mais essencial em nossa vida
ter amor pela vida que nos foi dada
ter respeito pelo que nos foi concedido
toda uma obra a ser escrita
basta que nos esforçemos para escrever da forma com conseguimos
essa mesma obra
sabemos que nascemos e que morremos
o que fazer diante desse fato?
ficarmos sentados ou buscarmos viver nossas vidas?
somente nos aventurarmos no mistério da existência
criarmos e não apenas nos relacionarmos
para sermos felizes
fica esse questionamento para pensarmos
pois é nossa vida
não é?

UMA HISTÓRIA DE TANTO AMOR

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.
Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não tem coisa nenhuma no fígado”. Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café — e vi¬nha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.
Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engor¬dá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava:
— Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rá¬pi¬do que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia infor¬mou:
— Nós comemos Petronilha.
A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguiu olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe:
— Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sem¬pre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embru¬lhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles gran¬des fogões de tijolos das fazendas das minas-gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.
Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não ape¬nas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.
Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer qua¬se físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o san¬gue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser fei¬to para amar até que se tornou moça e havia os homens.

LISPECTOR, CLARICE. Uma História de Tanto Amor. In Felicidade
Clandestina Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998